Desde domingo cedo, acompanhando
as notícias sobre a reintegração de posse que estava ocorrendo em São José dos
Campos (SJC), sinto-me profundamente abalado. Não suporto violência,
discriminação e perversas demonstrações de violação aos direitos daqueles
moradores, direito à cidade, à moradia, regularização fundiária, dignidade, e
no mínimo, o direito que cada um tem de ser respeitado. Mas eu precisava ver de
perto o que estava acontecendo, precisava ajudar no que fosse possível. Porque
eu não consigo ficar parado enquanto algo tão grave acontece. E cedo peguei um ônibus
rumo ao Vale do Paraíba, informando – via celular - meus amigos que também estão comovidos com a situação
cruel e desumana que aquelas pessoas estão sendo expostas.
Logo que cheguei a SJC, descobri
que poucos ônibus estavam indo até as proximidades do bairro Pinheirinho, a situação
era de risco. Aproveitei para averiguar a informação de que as pessoas estavam
ganhando passagens para partirem da cidade. Vi perto da área de embarque um
mulher com duas malas e seus filhos. Sentei perto e puxei conversa, falei que
estava ali como voluntário na área do Pinheirinho e perguntei se ela tinha
informações de lá. Ela respondeu que era um dos moradores que haviam sido expulsos
dali. Perguntei para onde ela ia, se havia familiares esperando em outras
cidades; ela disse que seu marido, como tantos outros maridos de Pinheirinho estava
trabalhando em SP (que constatei posteriormente); e que ela estava indo
encontrá-lo, porque estava com muito medo de ficar em algum alojamento da
prefeitura, e o conselho tutelar retirar seus filhos, como viu acontecer. Tenho
certeza que o marido dela não tem uma casa em SP, e que não ganha o suficiente
para bancar toda a família na capital, mas ela não teve escolha, o medo não permitiu
isso a ela. Assim, ela aceitou a proposta da prefeitura, ganhou a passagem para
São Paulo e partiria em poucas horas. A prefeitura
está se livrando daqueles moradores, enviando para longe a massa pobre e
excluída.
Quando desci do ônibus que me deixou
há 1km da igreja onde algumas pessoas estavam abrigadas, vi muitos
estabelecimentos comerciais fechados, e na cara das pessoas o mesmo medo que vi
no rosto daquela mulher. Inclusive, na caminhada rumo à igreja, descobri que ali
perto tem uma área que também foi invadida há aproximadamente 20 anos; só que
diferente de agora, houve regularização da posse e propriedade. Até hoje
pessoas pagam um pequeno valor, como parcelas pelo pedaço de terra que
invadiram há muito tempo. Uma solução inteligente, não é!?
Cheguei à igreja que servia de
alojamento em um momento tenso. Os moradores que ali estavam refugiados iam ser
transferidos para um novo alojamento que a prefeitura arrumou. A arquidiocese
pediu a retirada, pois não havia infra-estrutura para que elas continuassem
ali. E participei de um grande absurdo,
aquelas pessoas cansadas e humilhadas teriam que caminhar sob o sol forte de
meio dia, cerca de 3km até um poliesportivo que serviria de abrigo. Entre essas
pessoas, vi crianças, idosos, doentes, deficientes e estranhamente agregavam-se
à caminhada, usuários de drogas, que ninguém do Pinheirinho conhecia como
morador, mas como moradores do bairro dos Alemães. Durante a caminhada as
pessoas deveriam estar sempre juntas, não podendo nem atravessar a rua e andar
pela sombra, pois eram agredidas e conduzidas para junto da massa. A prefeitura
não se prontificou nem em arrumar um ônibus que os conduzisse. Somente na
chegada foi servido um almoço extremamente precário a elas.
Aproveitei a longa caminhada para
conversar com alguns moradores. Descobri que eles estavam todos muito tranqüilos
no sábado que antecedeu a invasão; inclusive houve um churrasco com a presença
do senador Eduardo Suplicy, em comemoração a um acordo que o mesmo foi
notificá-los de que a prefeitura resolveria aquela situação de maneira
pacifica. Esse foi o primeiro passo da grande tática de guerra arquitetada para
essa reintegração. Ou seja, deixou a população tranqüila, para evitar uma resistência
maior e no domingo de madrugada, todo o posicionamento da força policial foi
efetuado, uma invasão à surdina com direito a todos os requintes da maldade e
da violência contra aqueles moradores pegos de surpresa.
Verifiquei que violência policial
não teve limites nessa operação. Não houve diálogo em momento nenhum. Houve
apenas tiros e agressões contra todas as pessoas, bastasse que fossem moradores
do Pinheirinho, ou alguém em defesa deles. O relato mais absurdo que escutei
foi sobre o ocorrido na madrugada de domingo para segunda (22/23) na igreja, a
policia atirou com armas de fogo, contra os moradores que estavam ali
refugiados. A polícia usando de suas armas de fogo também executou um morador
do bairro dos Alemães que estava apoiando a causa de Pinheirinho. Mas o que eu
simplesmente não consegui entender foi o fato de um desses ataques da policia
militar ter acontecido enquanto a policia federal estava no local escoltando o
secretário dos direitos humanos. (?).
É certeza que uma menina de 2
anos faleceu devido ao sufocamento com as bombas usadas pela policia, ela tinha
asma e muitas as pessoas confirmam essa história, mas a mãe dela,
misteriosamente desapareceu. Por falar em sumiços, vários moradores estão
desaparecidos e há um esforço das pessoas que ajudam para fazer uma lista com
esses nomes para cobrar das autoridades uma explicação. Moradores presenciam
agressões gravíssimas, e os feridos simplesmente somem. O problema é que não há
acesso aos abrigos, tão pouco aos hospitais, ou ao IML. Há uma verdadeira
cortina nebulosa armada pelo governo para esconder informações. Está muito difícil
conseguir qualquer tipo de informação. Felizmente por causa do processo de
mudança, eu e outros voluntários conseguimos ter acesso ao novo abrigo, assim,
ajudamos na distribuição de doações, conversamos com as pessoas para saber do
que elas realmente precisavam naquele momento. Lógico que elas precisavam de
tudo, mas os voluntários conseguiam amenizar, ainda que pouco aquela situação.
Sobre o alojamento posso defini-lo
facilmente, usando o termo “Campo de concentração”. O lugar é absurdamente
quente, sem ventilação, a água é quente também, os banheiros sem estrutura para
receber tantas pessoas, assim, exalando forte odor em menos de duas horas que
eles estavam lá. Todas as pessoas em
condições precárias. Cabe aqui dizer, a situação que mais me revoltou, havia
uma mulher deitada sobre dois colchões, ela tem câncer, e está em estágio
terminal. O câncer está no corpo todo e ela estava jogada, abandonada com dor,
acompanhada por sua cunhada que tentava ajudá-la. Os agentes da prefeitura nada
faziam em relação a isso. Cheguei até a discutir com um deles, questionei sobre
remédios, leitos em hospitais, algo que pudesse aliviar a dor daquela senhora.
Todas as desculpas esfarrapadas daquela agente, só me deixaram mais revoltado.
A ponto de eu gritar para ela dizendo: Não basta
matar essas pessoas? Tem que elevá-las a um sofrimento desumano? Então, ela
virou as costas, indiferente, e saiu.
Os agentes da prefeitura são
pessoas que trabalham simplesmente por trabalhar,(salvo raras exceções) cumprem
ordens mecanicamente e tratam todos aqueles moradores com frieza, como se
fossem animais, um rebanho onde se identifica cada um por uma pulseira
colorida. Há uma grave denúncia que as doações entregues a eles estejam
sumindo. Disso o que eu sei, é que muita coisa que saiu da igreja não havia
chegado ao novo abrigo (até o momento em que eu ali estava). Deve-se dizer que
as doações são muito importantes, principalmente de roupas e remédios. As
pessoas não conseguiram tirar quase nada de dentro das casas. Houve uma armação,
um cadastro inútil de pessoas aptas para retirar seus pertences das casas: só
deixaram um membro da família entrar e apenas uma vez com a seguinte instrução:
“Pegue o que você conseguir carregar e volte.” Alguns pouquíssimos moradores conseguiram
retirar mais coisas, pois arrumaram caminhão de mudança, charretes. Os
moradores perderam tudo, as casas foram demolidas e os móveis e eletrodomésticos
que cada um tinha, foi demolido junto, não sobrou nada.
Tudo friamente calculado, uma
tática de guerra planejada para destruir e excluir aqueles moradores, uma ação
minuciosamente armada com levantamento do serviço de Inteligência, que deveria
proteger, mas só faz ferir. Podemos citar a forma com eles invadiram; a
velocidade de desocupação da área; a destruição imediata das casas; o terror psicológico,
o medo implantado de maneira violenta; a separação de grupo de pessoas cada vez
uma mais distante do outro; o cansaço físico e mental conseqüente às condições
sub-humanas a que os moradores são submetido desde aquele domingo; a cortina nebulosa
bloqueando as informações; a limitação da atuação da mídia; a limitação da
atuação de voluntários. Foi tudo arquitetado maquiavelicamente pelo governo,
pela prefeitura, pelo criminoso Nahas, pela força policial, com a colaboração
do judiciário e pela omissão das demais autoridades (uma ação entre “amigos”).
Disso tudo, tenho a triste
constatação, quando pessoas poderosas querem alguma coisa, eles conseguem e não
importa os métodos cruéis utilizados. A democracia transforma-se em um conto de
fadas. Pessoas humildes, pobres e trabalhadoras são facilmente confundidas com
bandidos, tratados como tal, desde que haja interesse dos poderosos para que
isso aconteça. O pior de todo esse massacre é não ver a mobilização. Ver
pessoas privilegiadas na sociedade repetindo o discurso desses ladrões. O que
me levou ao seguinte questionamento: o que leva pessoas bem educadas, com
oportunidades e batalhadoras a se voltarem contra a classe mais pobre em defesa
de poderosos parasitas do sistema?
Já coloquei a culpa disso na
manipulação da mídia, na forma como foram criados e até na religião. Mas hoje
eu descobri o que faz isso acontecer, é a covardia. Essas pessoas têm medo de
assumir a responsabilidade pela desigualdade social, tem medo de perder o
status quo, são mesquinhos e hipócritas. Então o discurso elaborado pelos
parasitas “cai como uma luva” para justificar a covardia deles. Por causa dessa
covardia eles repetem discursos estúpidos sem nem pensar no que estão falando.
Eles usam discursos reacionários mesquinhos prontos porque são covardes. Hoje
eu tenho dó dessas pessoas, porque foi tirado deles a coisa mais valiosa do ser
humano. Que é a capacidade de se revoltar, de lutar pelo que se acredita e
principalmente de amar o próximo.
Tenho NOJO dessa gente das elites, dos poderes PODRES que desprezam os menos favorecidos! Judiciário, executivo, legislativo!
ResponderExcluirFantástico. Excelente mesmo. Obrigado por ter se arriscado para levar essas informações às pessoas. Vcs, que lá estiveram, são verdadeiros heróis.
ResponderExcluirPinheirinho foi uma punição, umexemplo, um manifesto da direita. Um aviso para todos: quem eles não reconhecerem como "pessoas de bem" não são considerados humanos e não tem direito algum, e serão punidos se não "souberem seu lugar". Não há outra leitura, não há outra interpretação possível desse absurdo que foi cometido de forma premeditada e oportunística.
Marcados com pulseirinhas ... marcados ... marcados ... marcados igual quando os nazistas marcaram aos que iam morrer ...
ResponderExcluirParabéns.. até agora não vimos nada tão informativo em qualquer outro lugar.
ResponderExcluirImparcial como todo bom esquerdista .... kkkkk
ResponderExcluirCurti muito, cara!
Parabéns ... e vê se me chama pra próxima ok ???
Volto para lá semana que vem para entregar algumas doações que estou recolhendo, vamos?
ResponderExcluirWernner, é necessário continuar nas investigações das mortes e desaparecimentos durante a operação. E na identificação (ainda que mínima) de quem realizou as agressões. O governo está tentando de todos os modos acobertar essas informações que são o calcanhar de Aquiles de toda a operação: contabilizar e expor as mortes ao grande público vai ser um golpe violento nos perpetradores e vai ajudar a impedir que isso ocorra. Recebemos informações de que a PM está encaminhando os corpos para IMLs de cidades da região para dificultar a identificação. Estamos suspeitando que também está havendo uma operação de ocultação de cadáveres pelos envolvidos na operação - em especial a Polícia. Vamos aqui de BH tentar articular algo para ir pra SJC ou, ao menos, ajudar quem tá indo ou tá lá. Mas de qualquer forma vê se tenta levantar mais informações em específico sobre as mortes e desaparecimentos dos moradores - dados sólidos sobre isso vão ajudar a gente a dar um golpe forte neste que violam em massa os direitos fundamentais dos cidadãos brasileiros. Abração e parabéns
ResponderExcluirPeco desculpa por ter que responder nessa maneira, mas nao creio que tenha algoa a ver com a direita ou esquerda, como un da esquesda, como aqueles da direita. Ridiculo realmente, quanto mais uma democracia funciona menor e a diferenca entre esquerda e direita ja que ambas as duas devem espor a intencao de melhorar o viver do povo, tanto que em varios lugares o referimento a esquerda ou direita e apenas historico, o cidadao verdadeiro nao deve haver predilecao pela direita ou esquerda baseando-se a dogmas mas nas reais ideias que os partidos apresentam na atualidade facil equitetar o partido de direita como sem coracao ou aquele de esquerda salvador do povo. Prova esta nisso, a situacao de SJC, ela nos demonstra a total podridao de um inteiro sistema, de todos os tres poderes na base do Estado, sem distincao entre esquerda direita ou centro. Existe seguramente excecoes pois, elas fazem a regra, mas sao igualmente culpadas na cumplicidade delas no nao denunciar nada. Horrivel toda essa situacao, de dar no na garganta realmente, atualmente nao consigo nem mais imaginar uma situacao assim, nao entendo como a maioria da populacao consiga ficar parada olhando... Vergonha povo Paulistano covarde, tenho vergonha por nos.
ResponderExcluirWerner, parabéns pela sua coragem, pelas suas ações, pelas suas atitudes e pela sua reflexão.
ResponderExcluirEu concordo com você quando diz que nossa atitude passiva e alienada diante dos fatos, especialmente quando se trata de pessoas pobres, é devido a nossa covardia advinda do medo de perdermos "nosso lugar" na sociedade. E acrescento que essa nossa covardia está intimamente aliada ao nosso comodismo e ao nosso egoísmo. Não somos educados para o altruísmo. Aliás, brasileiro gaba-se de ser um povo solidário. Solidário quando convém e quando ele não precisa realmente botar a mão na massa, não é mesmo?
Acho que existem tantos Pinheirinhos esparramados por esse Brasil! Devemos, no mínimo, nos indignar. E precisamos agir também.
Aqui em Brasília, existem muitas invasões e estou cansada de ouvir o discurso de que essas pessoas que invadem são vagabundas e só vêm pra cá porque sabem que vão ganhar um lote. Mas não é obrigação do Estado oferecer condições básicas de sobrevivência? Não importa de onde você veio. Você é brasileiro do mesmo jeito! E é ser humano, acima de tudo! Tudo isso me dá nojo, me indigna e, não fossem ações como as suas, eu já teria perdido as esperanças. :(
Parabéns!
Formidável tua matéria. Informativa, real, denunciadora! Parabéns pela iniciativa.
ResponderExcluirFotos que tiramos no alojamento do Morumbi em SJC
ResponderExcluirhttps://www.facebook.com/media/set/?set=a.373156806034084.110943.100000193028833&type=1